
A morte fecha os olhos mais abertos do século XX Redação Central, 4 ago (EFE).- Em suas últimas entrevistas, Henri Cartier-Bresson contou que, nos últimos anos, às vezes ao se aproximar de um grupo de fotojornalistas que aguardavam para tirar uma foto, estes tinham o convidado a se afastar para que não os incomodasse.
Nenhum desses fotojornalistas, com seus enormes equipamentos e longas objetivas de última geração, haviam reconhecido naquele senhor, com sua minúscula câmara Leica, Henri Cartier-Bresson, o professor indiscutível que estabeleceu as bases do fotojornalismo, ajudou a fundar a mítica agência Magnum e fez escola com sua doutrina do "momento decisivo".
Em todo caso, ele parecia não se importar muito com aquele desprezo. Durante toda a sua vida uma de suas obsessões foi passar inadvertido, ficar invisível para escapulir pelos cantos mais insuspeitos e retratar a vida.
Nascido em Chanteloup (França) em 1908, filho de uma família de industriais, Cartier-Bresson cruzou o mundo inteiro, captando a vida e a morte de seus contemporâneos, até que seu próprio momento final chegou na última segunda, em l'Isle-sûr-la-Sorgue, no sudeste da França.
O fotógrafo começou como desenhista e pintor e voltou a se entregar a essas disciplinas depois de abandonar a fotografia profissional nos anos 70.
Esse abandono, tão discreto como tudo em sua vida e que muitos não souberam entender, encerrou uma carreira fundamental para entender a arte da fotografia, que começou aos 22 anos, quando depois de viajar pela Costa do Marfim e outros países da África e Europa, ele publicou pela primera vez suas fotos, na revista "Vu".
A partir de então, suas viagens seriam incessantes e sua câmera capturou fatos históricos como a Guerra Civil espanhola (1936-1939), na qual sentou as bases do moderno fotojornalismo de guerra junto a seu amigo Robert Capa.
Ele também teve tempo para fazer algumas incursões no cinema, pelas mãos de diretores como Jacques Becker e Jean Renoir, com quem trabalhou como ajudante na obra-prima "A regra do jogo" (1939).
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), além de novas fotos, trouxe também a detenção em campos de concentração nazistas, até que conseguiu fugir e se alistar na resistência, imortalizando mais tarde a libertação de Paris em suas fotos.
Em 1945, voltou a lembrar a experiência dessa guerra no documentário "Return to life" (1945), financiado pelo escritório de informação bélica dos EUA.
Dois anos depois, Cartier-Bresson, Capa e outros dois gênios da fotografia - George Rodger e David Seymour - fundaram a agência Magnum, uma sociedade cooperativa criada para tornar o fotógrafo independente das exigências das revistas. O empreendimento se tornaria um mito e reuniu muitos dos fotojornalistas mais famosos do mundo.
"Com a Magnum nasceu a necessidade de contar uma história" por meio da imagem, explicou anos depois Cartier-Bresson em uma entrevista ao jornal "Le Monde", na qual reconheceu também a decisiva influência de Capa em seu modo de encarar a fotografia.
Uma filosofia que refletiu em todas as suas imagens, que captam desde a vida cotidiana na Espanha republicana até a Revolução chinesa e o caos na Índia depois do assassinato de Gandhi. Nelas também aparecem, com toda sua humanidade, desde as prostitutas dos bordéis mexicanos até gigantes da cultura do século XX, como Ezra Pound, Henri Matisse e Coco Chanel.
Cartier-Bresson fez escola com seu trabalho, sempre em preto e branco associado como poucos a um modelo de câmera, as da empresa alemã Leica, que revolucionaram o mundo da fotografia ao introduzir o formato de filme de 35 milímetros - que diminuiu bastante o peso do equipamento fotográfico -, seu pequeno tamanho, seu visor direto, que possibilitava ver a cena a todo momento, e seu obturador silencioso, que permitia ao fotógrafo quase não ser notado.
Características que enquadravam a perfeição no estilo de Cartier-Bresson, cujas fotos são reconhecidas por captar com precisão um momento-chave no qual a expressão das pessoas retratadas, a luz e a composição dão lugar a uma imagem única, capaz de retratar tanto o amor de dois jovens se beijando em um café como a fé de um grupo de muçulmanas rezando nas montanhas da Caxemira.
A importância de captar justamente esse instante mágico foi definida por Cartier-Bresson como "O momento decisivo", título de seu livro mais famoso, publicado em 1952. "A câmera é o prolongamento do meu olho", disse uma vez o fotógrafo.
Agora, seus olhos e os de sua fiel Leica, que ele nunca deixou totalmente de lado, fecharam-se para sempre e, com o mesmo sigilo que caracterizou sua vida, o mundo só soube dois dias depois.

Escrito por LUIS HEFNER às 18h41
[]
|